quinta-feira, 31 de julho de 2008

The stars are higher, the airplanes fly lighter on concrete. Eu gosto do cinza. Acho mesmo que o concreto pode desempenhar um papel essencial na vida de algumas pessoas. Na minha, certamente. É bom morar em qualquer cidade concretizada, por assim dizer, como São Paulo, acordar e olhar pela janela ele, o concreto. Acho que sofro de uma abstinência crônica de abrir minha janela e não ver o cinza, do chão ao céu. Penso até que sou algum tipo de viciado, cuja poluição respirada pro meu corpo se integrou à minha constituição. Sou o lixo da poluição, o resto do cinza do concreto, do chão, do céu. Tudo entrou em mim. Minha alma ficou pesada. De verdade, carregar uma alma concretizada em meio a árvores não é fácil. Árvores mudam em curto pedaço de tempo. A folha seca, a folha se revigora, a folha morre, a folha nasce, a folha cai e serve de alimento pra alguma coisa. Árvores são inconstantes. O concreto, não. Nele se pode confiar, porque se sabe o que esperar dele. E, sério, poucas coisas são mais importantes do que saber o que esperar de alguma coisa, do que entender a razão de alguma coisa existir. O cinza é mais do que concreto. O concreto é mais do que concreto. Ele é a esperança concretizada de uma rotina que te faz se identificar com você mesmo toda vez que o vê ali parado no mesmo lugar. Ele e as estrelas. O pó delas, mais especificamente. Mas as estrelas são mais místicas, elas pertencem a outro mundo. O concreto é tocável e muito, mas muito mais bruto e estúpido. Assim como a vida, lighter on concrete.

segunda-feira, 2 de junho de 2008


Há mais ou menos duas semanas, assisti ao Sean Penn’s Into the Wild. Na verdade, o nome do ator Sean Penn não aparece no título original do filme, mas por puro lapso de pretensão. Sim, porque em todo o resto, pretensão é o que não falta. O moço é diretor, roteirista, produtor e, por assim dizer, um cara solidário por dar o papel de protagonista de seu filme ao sem graça Emile Hirsch, que, definitivamente se dá melhor no papel de Speed Racer. Com imagens bonitas, mas com alguns diálogos bobos, sem sentido (quando não com tons moralizantes), o Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007) é um belo filme desperdiçado. Um rapaz, Cristopher McCandless, logo após se graduar, desfaz-se de tudo o que tem, inclusive da família, para viver no mundo selvagem do Alasca. Acontece que, em sua sétima experiência como diretor, Sean Penn parece não ter decidido quem afinal seria o protagonista do filme: a natureza, que engole e mastiga a personagem de Emile Hirsch, ou o próprio, que tenta desbravar esse mundo desconhecido. O diretor privilegiou o protagonista humano, mas quem ganha é a natureza.

E sobre a pretensão, não há o menor problema em sê-lo. Em Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007), Paul Thomas Anderson ( o do “estranho” Magnolia, 1999) parece se deparar com o mesmo problema, que, no caso dele, foi a própria solução: a personagem de Daniel Day-Lewis ou o dinheiro criado pela indústria do petróleo seria a protagonista? Daniel Day-Lewis torna-se a personagem-mor, aquela em cima da qual o filme todo se sustenta, mas o diretor faz esse personagem completamente submetido às diretrizes da indústria do petróleo, que se configura, na verdade, como a protagonista invisível cuja mão rege a atuação de Day-Lewis como o magnata Daniel Plainview. O problema da pretensão não é ela existir: é se saber colocá-la em prática sem que ela transpareça como mais uma das personagens de um filme, engolindo todas as outras. Paul Thomas Anderson entendeu o que isso significa. Sangue Negro é uma obra de arte. Em Na Natureza Selvagem, a pretensão morre no Alasca.


sábado, 24 de maio de 2008

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Não se pode afirmar exatamente que eu não gosto dos dias em que eu vivo. Também não posso dizer que eu os adoro. Eu, por assim dizer, convivo com eles. Ou melhor, tenho aprendido, quase que à força, a dividir o tempo da minha existência interior com a existência do resto das coisas que também vivem neste mundo. E, sim, na maior parte do tempo, temos todos chegado a um consenso. Não é como se o nascimento de uma flor em um daqueles jardins em cima de edifícios no Japão tivesse de receber a minha concordância. Tampouco afeta a vida de um camelo no Saara a minha existência ou não. A questão é que dividimos o mesmo espaço. Vivemos em um pedaço do universo bastante restrito. Habitamos em terra. As felicidades e as tristezas; a consciência e a fantasia; a raiva e o carinho; nada disso acontece em um plano superior, ou em uma hiper-realidade teórica forjada por Baudrillard ou Umberto Eco. Tudo acontece para nos lembrar que temos os pés fincados em terra. Em terra nascemos, de baixo dela seremos enterrados. Até a gravidade serve como um lembrete do tipo “não vá para muito longe da terra senão a volta pode ser desastrosa”. Mas eu não sou exatamente uma pessoa que se atenta a muitos lembretes. Por isso talvez meu irmão sempre me xingasse quando algum amigo dele ligava e eu, convenientemente, era afetado por um branco que apagava tudo de minha memória. Ou, quem sabe também por isso, eu tenha simpatia por aquelas coisas que ousam não se fixar ao chão, ao comum. Eu gosto do vôo, como em um fluxo de pássaros. Eu gosto de achar que voar pode me proporcionar perspectivas diferentes. E se voar puder não significar somente tirar os pés do chão, então eu vôo. Como poetas, apaixonados, artistas, pássaros e Baudrillard, fugir para um plano mais elevado é sensivelmente atraente. Pássaros voam porque é de sua natureza. Eles têm asas para isso. O mesmo pode ser dito sobre minha natureza. Eu penso, e com meu pensamento eu alcanço estágios mais altos. Eu gosto de voar. E voar assim, como em um fluxo de pássaros. Habitamos em terra, mas, às vezes, procurar perspectivas superiores me afasta do comum e me eleva a um lugar em que eu posso entender melhor os dias e as coisas que compartilham comigo o mundo em que eu vivo.