Não se pode afirmar exatamente que eu não gosto dos dias em que eu vivo. Também não posso dizer que eu os adoro. Eu, por assim dizer, convivo com eles. Ou melhor, tenho aprendido, quase que à força, a dividir o tempo da minha existência interior com a existência do resto das coisas que também vivem neste mundo. E, sim, na maior parte do tempo, temos todos chegado a um consenso. Não é como se o nascimento de uma flor em um daqueles jardins em cima de edifícios no Japão tivesse de receber a minha concordância. Tampouco afeta a vida de um camelo no Saara a minha existência ou não. A questão é que dividimos o mesmo espaço. Vivemos em um pedaço do universo bastante restrito. Habitamos em terra. As felicidades e as tristezas; a consciência e a fantasia; a raiva e o carinho; nada disso acontece em um plano superior, ou em uma hiper-realidade teórica forjada por Baudrillard ou Umberto Eco. Tudo acontece para nos lembrar que temos os pés fincados em terra. Em terra nascemos, de baixo dela seremos enterrados. Até a gravidade serve como um lembrete do tipo “não vá para muito longe da terra senão a volta pode ser desastrosa”. Mas eu não sou exatamente uma pessoa que se atenta a muitos lembretes. Por isso talvez meu irmão sempre me xingasse quando algum amigo dele ligava e eu, convenientemente, era afetado por um branco que apagava tudo de minha memória. Ou, quem sabe também por isso, eu tenha simpatia por aquelas coisas que ousam não se fixar ao chão, ao comum. Eu gosto do vôo, como em um fluxo de pássaros. Eu gosto de achar que voar pode me proporcionar perspectivas diferentes. E se voar puder não significar somente tirar os pés do chão, então eu vôo. Como poetas, apaixonados, artistas, pássaros e Baudrillard, fugir para um plano mais elevado é sensivelmente atraente. Pássaros voam porque é de sua natureza. Eles têm asas para isso. O mesmo pode ser dito sobre minha natureza. Eu penso, e com meu pensamento eu alcanço estágios mais altos. Eu gosto de voar. E voar assim, como em um fluxo de pássaros. Habitamos em terra, mas, às vezes, procurar perspectivas superiores me afasta do comum e me eleva a um lugar em que eu posso entender melhor os dias e as coisas que compartilham comigo o mundo em que eu vivo.
sábado, 24 de maio de 2008
untitled me
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